Ir para o conteúdo
sexta-feira, 16 de outubro, 2026 25.6 °C Recife
Stellantis testa IA que dirige sem as mãos em três carros diferentes
Tecnovidade

Stellantis testa IA que dirige sem as mãos em três carros diferentes

Uma mesma inteligência de condução instalada em carros tão diferentes quanto um Fiat 500e, um Maserati Grecale e um Jeep Grand Cherokee. É essa capacidade de levar o...

Por Redação Mecânica Online®
8 min

Uma mesma inteligência de condução instalada em carros tão diferentes quanto um Fiat 500e, um Maserati Grecale e um Jeep Grand Cherokee. É essa capacidade de levar o mesmo “cérebro” eletrônico para diferentes plataformas que Stellantis e Wayve querem demonstrar em Turim. O motorista poderá tirar as mãos do volante em determinadas condições, mas existe uma diferença fundamental entre essa tecnologia e um automóvel realmente autônomo.

A Stellantis e a Wayve apresentarão no Wave by Vento 2026, realizado entre 7 e 9 de outubro em Turim, na Itália, veículos de desenvolvimento equipados com uma nova aplicação de inteligência artificial para assistência à condução.

O principal destaque estará fora dos estandes.

Fiat 500e e Maserati Grecale estarão disponíveis para demonstrações práticas utilizando a integração entre o Wayve AI Driver e a plataforma STLA AutoDrive.

O objetivo é demonstrar uma condução automatizada supervisionada capaz de funcionar sem as mãos no volante e em trajetos urbanos e rodoviários, dentro das condições previstas pelo sistema.

Mas isso não transforma esses carros em veículos autônomos.

Motorista continua responsável

A Stellantis utiliza a denominação comercial “Nível 2++” para caracterizar o sistema em desenvolvimento.

É importante fazer uma distinção técnica.

Level 2++ ou Nível 2++ não é um nível formal definido pela classificação SAE de automação veicular.

Na escala SAE, o Nível 2 corresponde à automação parcial, na qual sistemas podem controlar simultaneamente funções de direção longitudinal e lateral, mas o motorista continua responsável pela condução e pela supervisão do ambiente.

Portanto, retirar as mãos do volante não significa retirar o ser humano da responsabilidade de dirigir.

O próprio projeto da Stellantis e da Wayve é apresentado pelas empresas como condução automatizada supervisionada.

Essa palavra — supervisionada — é fundamental para compreender a tecnologia.

A mesma IA em Fiat, Maserati e Jeep

Talvez a parte mais interessante do projeto esteja menos na capacidade de dirigir sem as mãos e mais na arquitetura utilizada para chegar até ela.

A tecnologia combina o Wayve AI Driver, responsável pela inteligência de condução baseada em IA, com a plataforma STLA AutoDrive, desenvolvida para receber recursos avançados de assistência.

Antes do Fiat 500e e do Maserati Grecale, a integração havia sido demonstrada em um veículo de desenvolvimento baseado no Jeep Grand Cherokee, apresentado no Investor Day da Stellantis em maio.

Agora, a mesma base central de inteligência artificial aparece aplicada a três veículos com características, plataformas e configurações diferentes.

Isso permite testar uma questão estratégica para a indústria: até que ponto uma inteligência de condução pode ser adaptada a diferentes automóveis sem que todo o sistema precise ser desenvolvido novamente para cada modelo.

Software precisa entender carros diferentes

A possibilidade de compartilhar a inteligência não significa simplesmente copiar um programa de um veículo para outro.

Um Fiat 500e e um Maserati Grecale possuem dimensões, massas, comportamento dinâmico e respostas diferentes aos comandos.

A inteligência precisa trabalhar integrada aos sistemas que efetivamente controlam aceleração, frenagem e direção.

É justamente a combinação entre uma camada de IA que possa ser escalada e a integração da engenharia específica de cada veículo que torna essa estratégia relevante.

Para uma fabricante com diversas marcas e arquiteturas, a vantagem potencial está em desenvolver uma base tecnológica comum capaz de ser adaptada a produtos diferentes.

Isso pode reduzir a necessidade de criar uma inteligência de condução completamente independente para cada automóvel.

IA de ponta a ponta muda a lógica tradicional

A Wayve trabalha com uma abordagem chamada end-to-end, ou de ponta a ponta.

Em termos simplificados, a proposta é utilizar inteligência artificial para transformar as informações captadas sobre o ambiente em decisões de condução de maneira mais integrada.

Em vez de depender exclusivamente de uma longa sequência de regras programadas para cada situação possível, o sistema utiliza modelos de IA desenvolvidos para interpretar situações e produzir respostas de condução.

Isso não elimina a necessidade de sensores, processamento, validação, redundâncias e integração com os sistemas do automóvel.

Também não significa que a inteligência possa dirigir em qualquer lugar ou condição simplesmente porque utiliza IA.

Os limites operacionais continuam sendo fundamentais para determinar quando e onde determinada função pode ser utilizada.

Primeiro produto está previsto para 2028

A parceria estratégica entre Stellantis e Wayve foi anunciada em maio de 2026.

O primeiro produto comercial resultante dessa colaboração está previsto para 2028, inicialmente na América do Norte.

A proposta inicial é justamente oferecer condução automatizada supervisionada, sem as mãos, em ambientes urbanos e rodoviários.

Stellantis e Wayve afirmam que a arquitetura também foi pensada para permitir evolução futura em direção a níveis mais elevados de automação.

Isso, porém, deve ser interpretado como potencial de desenvolvimento, e não como confirmação de que os veículos atualmente apresentados estejam preparados ou homologados para operar autonomamente.

O que existe hoje são veículos de desenvolvimento utilizados para demonstrar e validar a integração.

O carro começa a aprender mais pelo software

O projeto também mostra como a engenharia automotiva está incorporando uma nova camada de desenvolvimento.

Durante décadas, diferenciar carros significava trabalhar principalmente com motor, transmissão, suspensão, direção, freios e estrutura.

Tudo isso continua sendo fundamental.

Mas eletrônica, software e inteligência artificial passam a participar diretamente da maneira como o automóvel se comporta.

No caso de um sistema de assistência à condução, essa relação fica ainda mais evidente.

A IA pode interpretar o ambiente e determinar uma ação, mas são componentes físicos do veículo que precisam executar corretamente aquela decisão.

Software e mecânica, portanto, tornam-se cada vez mais interdependentes.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe uma frase que precisa acompanhar qualquer discussão sobre sistemas desse tipo: hands-free não significa eyes-off e muito menos motorista dispensável.

Esse é justamente o risco de expressões como “Nível 2++”.

Elas ajudam fabricantes a diferenciar sistemas mais sofisticados dentro do universo do Nível 2, mas não fazem parte da classificação formal da SAE.

Para o motorista, a informação realmente importante é outra: quem é responsável por monitorar a condução?

Neste caso, continua sendo o ser humano.

Tecnicamente, entretanto, existe outro aspecto muito interessante.

A Stellantis está tentando demonstrar que uma mesma base de inteligência pode funcionar em automóveis bastante diferentes.

Isso muda a escala do desenvolvimento.

Imagine uma arquitetura na qual parte importante do “cérebro” responsável por interpretar o trânsito possa ser compartilhada, enquanto a engenharia realiza a integração necessária para as características específicas de cada veículo.

É uma lógica semelhante à transformação que já vimos em outras áreas da eletrônica: uma plataforma comum pode atender produtos diferentes, desde que cada aplicação seja corretamente integrada e validada.

E aí a mecânica não desaparece.

Muito pelo contrário.

Se a inteligência artificial decide frear, acelerar ou esterçar, existem atuadores, freios, direção, pneus, suspensão e inúmeras interfaces físicas transformando aquela decisão digital em movimento.

O carro definido por software continua dependendo de hardware funcionando corretamente para executar aquilo que o software determina.

Para acompanhar como inteligência artificial, eletrônica e software estão mudando a mecânica e a maneira como os automóveis são desenvolvidos, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • Três veículos – Fiat 500e, Maserati Grecale e Jeep Grand Cherokee servem como demonstrações da capacidade de levar a mesma base de IA a aplicações diferentes.
  • Hands-free – O sistema permite condução sem as mãos em determinadas condições, mas continua exigindo supervisão do motorista.
  • Nível 2++ – É a nomenclatura utilizada pelas empresas para o sistema, mas não constitui um nível formal da classificação SAE.
  • IA compartilhada – A estratégia procura evitar que a inteligência de condução precise ser desenvolvida completamente do zero para cada modelo.
  • Urbano e rodoviário – A parceria tem como foco inicial assistência automatizada supervisionada capaz de operar nos dois tipos de ambiente.
  • 2028 – É o ano previsto para a primeira aplicação comercial da parceria, inicialmente na América do Norte.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • STLA AutoDrive – Plataforma tecnológica da Stellantis desenvolvida para integrar recursos avançados de assistência e condução automatizada aos veículos.
  • IA end-to-end – Abordagem na qual modelos de inteligência artificial participam de forma integrada da transformação das informações percebidas pelo sistema em decisões de condução.
  • Hands-free – Recurso que permite ao motorista retirar as mãos do volante dentro das condições estabelecidas pelo sistema; sozinho, não significa condução autônoma.
  • Nível 2 SAE – Automação parcial em que o veículo pode controlar simultaneamente movimentos longitudinais e laterais, enquanto o motorista permanece responsável pela supervisão e condução.
Stellantis testa IA que dirige sem as mãos em três carros diferentes